Empregadores desconfiam dos superqualificados

Apesar de o mercado de trabalho exijir cada vez mais competências sofisticadas dos candidatos, o fato é que um super currículo não abre necessariamente todas as portas
MAYSA S. PENNA

Engenheiro mecânico com pós-graduação em engenharia de qualidade no Arizona (EUA) e em engenharia mecânica em Nagoya (Japão), com pleno domínio de inglês e espanhol e fluência em francês, alemão e japonês, e mais de cinco anos de experiência como gerente de marketing para a América Latina. Aos 40 anos de idade e um currículo desses, Fábio Satoru pensou em muitas coisas quando, há um ano, procurou uma recolocação no mercado de trabalho. Só não imaginou que a pergunta que mais enfrentaria seria: ‘Mas, para que tanto estudo, meu rapaz?’

Satoru hoje é gerente de vendas para a América hispânica da BSB, multinacional do setor de tecnologia. Ele faz parte de um seleto grupo de profissionais conhecido como superqualificados, aqueles que possuem um conjunto de qualidades que os credenciaria a cargos bem mais elevados do que o estão se candidatando. ‘Minha última posição antes de procurar uma nova vaga foi na Du Pont, onde era gerente de marketing para a América Latina. Saí de lá em 95 para trabalhar como consultor mas há um ano voltei ao mercado procurando recolocação. Nunca pensei que minhas qualificações fossem aumentar a bateria de perguntas que eu tive de responder nas entrevistas de seleção’, conta o executivo.

Na verdade, embora o mercado de trabalho exija cada vez mais competências sofisticadas dos candidatos, o fato é que um super currículo não abre necessariamente todas as portas. Pelo menos é o que se depreende do cuidado que headhunters e consultores têm para recolocar um superqualificado.

Segundo Iêda Novais, presidente da Mariaca e Associados, é comum encontrar superqualificados disponíveis no mercado, seja por causa de fusões, seja por conta de reestruturações nas empresas. ‘Quando isso acontece, procuramos investigar profundamente todas as suas características, inclusive pessoais, porque é quase certo que ele não ficará muito tempo numa posição inferior à que ocupava antes’, diz ela. Por isso, a Mariaca evita recolocar profissionais em posições menores, por mais que eles se mostrem dispostos a aceitar. ‘Sabemos que logo depois do alívio de encontrar um novo trabalho virá a inquietação e insatisfação e a empresa vai perdê-lo em pouco tempo’, explica Iêda.

‘As pessoas aceitam baixar suas expectativas no momento de ansiedade por uma nova colocação, porque temem não conseguir um novo posto’,
explica Mozart

Amaecing Langbeck, gerente de gestão do capital humano da Deloitte Touche Tomatsu. Na maior parte das vezes, são executivos que não esperavam perder seus empregos e não se prepararam para isso. ‘Quando nos deparamos com essa situação, evitamos a recolocação e encaminhamos o executivo para um aconselhamento de carreira’, afirma.

Mas não é apenas a disposição de aceitar uma posição inferior que levanta suspeitas. Segundo a psicóloga Sarah Said Cristina de Souza, diretora da Alphalaser/Dow Right, algumas empresas receiam que o superqualificado acabe criando efeitos colaterais perigosos, como o desmantelamento de equipes decorrente da independência natural com que atuam, deixando os companheiros para trás e, claro, insatisfeitos e frustrados. ‘Conduzi diversos processos complicados’, afirma ela. ‘Num deles, foram tantos os currículos superqualificados para uma vaga de assistente de marketing de uma empresa de tecnologia que o gerente da área se assustou, não contratou ninguém e fechou a vaga.’

‘É muito comum a empresa contratante não aceitar o superqualificado por desconfiar de que possa haver algo de errado com ele’, afirma Aline Zimermann, sócia da Fesa/Asap. ‘E, muitas vezes, de fato há uma grande ansiedade por encontrar logo um novo trabalho. Passados os primeiros momentos, porém, o executivo começa a se inquietar com uma posição abaixo de suas qualificações’, garante ela.

No caso de Satoru, o cargo que pleiteava não era inferior à sua última posição, mas seu grande preparo acadêmico intrigava os entrevistadores. ‘Eu explicava que cada posição que ocupei exigia novos conhecimentos e eu ia buscá-los’, conta ele. ‘Sinto que foi minha capacidade de adaptação e flexibilidade, demonstradas nas entrevistas pessoais, que me garantiram uma nova colocação’, admite ele.

Os consultores admitem que se por um lado os superqualificados sempre terão colocação num mercado cada vez mais ávido por profissionais capacitados, por outro as dificuldades são grandes e a quantidade de superqualificados disponíveis é maior do que possa parecer. Uma pesquisa internacional concluída recentemente pela consultoria DBM confirma a situação. Dois terços das 450 maiores corporações multinacionais (quatro delas brasileiras) trocaram seus CEOs nos últimos cinco anos. Desse total, metade delas fez a troca por causa de processos de fusão ou aquisição. Em 85% desses casos, os novos dirigentes foram recrutados dentro dos quadros internos das próprias organizações, o que deixou para o mercado um grande contingente de superqualificados à procura de recolocação.

‘No nível gerencial a quantidade de superqualificados que chegam ao mercado por causa de fusões e reestruturações é ainda maior’, afirma Aline Zimermann sócia da Fesa/Asap. Para todos eles, o conselho que a headhunter dá é analisar friamente a situação e suas reais condições de carreira, antes de aceitar qualquer proposta, por melhor que pareça. ‘O mercado está carente de bons profissionais, não é preciso ter pressa’, garante ela.

Fonte:
GAZETA MERCANTIL +- no ano 2000, mas o assunto continua atual.

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