Testes Vocacionais?

O TESTE VOCACIONAL AINDA É UTILIZADO?

Boa parte dos estudantes brasileiros que termina o ensino médio passa por momentos de grande indecisão, pois, ainda muito jovem, precisa escolher qual carreira seguir. O que fazer diante desse impasse? Um teste vocacional pode ajudar? O resultado é garantido? Será que esse método está ultrapassado? Antes de conhecer as respostas dos oito profissionais entrevistados, vale saber que o primeiro teste de inteligência global foi criado pelo militar inglês Raven em meados de 1914. Utilizado como base para analisar os talentos dos soldados do exército britânico, um questionário elaborado com perguntas sobre habilidades registrava o perfil dos soldados e, assim, determinava a sua função dentro da corporação militar.

Dela para cá, diversas metodologias foram desenvolvidas para orientar jovens e até pessoas que desejam mudar de profissão. Mas nestes novos tempos e nesta era do conhecimento, nem todos os especialistas concordam com o uso do teste vocacional, e, por isso, buscam no dia-a-dia outras maneiras de trabalhar. A seguir, veja um quadro das principais formas de orientação vocacional adotadas no país.

Silvio Bock, pedagogo e diretor da consultoria NACE, em São Paulo – Tem profissional que utiliza, eu não. Quase ninguém mais aplica o teste vocacional como uma forma única. Trata-se de um elemento auxiliar no processo da orientação vocacional. Eu, particularmente, sou contra o modelo que consiste em testes, que define a carreira de um adolescente diante das respostas que vão traçar o seu perfil pessoal e ocupacional. O teste não traz consciência para a pessoa, ou seja, é como se fosse uma consulta médica, em que o especialista avalia, solicita exames, traça o diagnóstico e recomenda o remédio. O indivíduo não participa da decisão. Eu acredito que a escolha profissional deva ser baseada numa síntese de fatores que possibilite ao indivíduo o poder de decisão.

Brônia Liebesny, psicóloga e professora da PUC-SP – Alguns profissionais usam os testes para levantar características das pessoas e desenhar um perfil que será comparado com aquele definido como o das profissões.Assim, se houver coincidência entre muitas dessas características, é possível constatar que o sujeito e a profissão são mutuamente adequados. Mas essa não é a única forma de se desenvolver o aconselhamento profissional, já que as práticas dos orientadores estão embasadas em teorias sobre o desenvolvimento do homem. Muitos psicólogos, como eu, realizam a orientação por meio da análise dos temores, das dificuldades pessoais que o impedem de decidir… Para mim, todas essas formas são válidas.

Sigmar Malvezzi, psicólogo e professor da USP, FGV, Universidad Tecnológica Nacional (Argentina), Universidad del Valle (Colômbia) e Universidad Icesi (Colômbia) – As pessoas o utilizam pelo fato de ser uma abordagem da Psicologia. Eu não aplico esse tipo de teste há 20 anos, pois a Psicologia evoluiu e tomou outros caminhos, usando a intervenção e ajudando o ser humano a vencer. Mudou-se o conceito de inteligência, pois esse é um processo de adaptação. A tendência hoje não é mensurar, porque não adianta ser inteligente se a pessoa não consegue se adaptar.

Mila Montoura, psicóloga, terapeuta corporal e sócia-diretora da Oficina de Carreira, em São Paulo – Os testes vocacionais são bem menos utilizados por causa da margem de erro. Entre 100 pessoas que fazem o teste, 70 enganam-se e mudam de profissão. Eu não uso testes, trabalho com dinâmicas corporal e verbal.

Fabiana Duarte Takiuti, psicóloga e sócia-diretora da Oficina de Carreira – Hoje, o teste é adotado somente como ferramenta que complementa uma metodologia de orientação vocacional. Eu não aplico pelo fato de ser estereotipado e engessado. Dentro de cada área, existem várias ramificações.Prefiro o trabalho com dinâmicas.

Maria Elci Spaccaquerche, psicóloga e professora da UNIB, Universidade Ibirapuera, em São Paulo – Desde a década de 1970 não vejo mais ninguém usando o teste. Eu nunca lancei mão somente do teste para orientação vocacional. Já apliquei o teste de interesse como ferramenta em conjunto com outras metodologias. O teste em si, que dá as respostas para o cliente, não. O profissional tem de oferecer maior amplitude para o cliente decidir.

Rosana Rodrigues, psicóloga, responsável pelo programa de coaching para jovens profissionais na consultoria Crescimentum, de São Paulo – Os testes ainda existem, mas são uma ferramenta de avaliação, uma análise do perfil de uma pessoa. Eu nunca usei, porque não concordo coma forma de rotular um cliente. Mesmo que a pessoa não possua habilidade numa área, mas tem vontade de atuar, com muito esforço é possível mudar as características.

QUAL METODOLOGIA UTILIZA PARA REALIZAR A ORIENTAÇÃO VOCACIONAL?

Silvio Bock – O meu método é totalmente diferente do teste vocacional. Faço uma abordagem sócio-histórica com o cliente e ofereço condições para que encontre o seu caminho profissional. Aplico uma metodologia que faz o indivíduo pensar sobre o mundo em que atua e como intervir nele, refletir a respeito dos valores de vida, habilidades, profissões e a realidade de trabalho. Depois, ele chega a uma conclusão sobre o que deseja fazer. Trata-se de um programa composto por jogos, vídeos, questionários, conversas, que leva a pessoa a pensar sobre si mesma, o significado da escolha profissional, entre outros temas.Eu só oriento, não dou um diagnóstico. Trabalho em grupo com até 16 participantes ou individualmente.

Brônia Liebesny – Utilizo a metodologia da orientação ao indivíduo, pois acredito que é ele quem deve ter a capacidade de tomar decisões frente ao conflito entre as opções profissionais. A própria pessoa precisa construir o conhecimento de si, de seus desejos, gostos, auto-imagem, imagem social, o conhecimento do mundo do trabalho, das profissões e suas relações.Quanto maior conhecimento sobre as determinações de seu trajeto, menor o risco nas formas de satisfação das escolhas.

Sigmar Malvezzi – Utilizo o método de Bohoslavsky, um sistema de auto-avaliação do perfil e habilidades do cliente por meio de exercícios em grupo, criado pelo psicólogo argentino Rodolfo Bohoslavsky,em 1971. É feito um levantamento de oportunidades, limitações, sucessos, fracassos na vida da pessoa, por meio de exercícios, pesquisas, entre outras técnicas. Depois, faço um mapa e contrasto com aquilo que o cliente deseja ser. A partir daí, identifico metas que a pessoa quer alcançar.

Mila Montoura – Aplico exercícios corporais, dinâmicas de auto conhecimento, ministro workshop sobre o futuro, trabalho com pesquisas sobre o estudante, converso bastante. É uma dinâmica tanto corporal como verbal. O corpo é uma fonte de informação, uma ferramenta de mudança e crescimento. A idéia não é que um estudante saia da oficina (de Carreira) com a profissão na cabeça, mas que fique ciente das suas habilidades e de suas missões. A pessoa entra em contato com a essência e sai do estado de ansiedade, do imediatismo.

Fabiana Duarte Takiuti – Eu faço uma psicoterapia breve, voltada para a escolha profissional. Em dez sessões, converso sobre o que a pessoa gosta de fazer, por meio de questionários, jogos e dinâmica. Avalio o padrão cultural, influência social e traço o perfil desse cliente. O próprio jovem chega à resposta por meio de evidências e, da terapia, ele tira a conclusão sobre o que desejar fazer. Cabe a mim apenas orientar onde há pontos de estresse, conflitos, etc.

Maria Elci Spaccaquerche – O método de Bohoslavsky é a minha base de trabalho. Eu acredito que a pessoa primeiro tem de se conhecer para depois escolher uma profissão. É preciso fazer um levantamento sobre as habilidades e o perfil do ser humano. Minhas técnicas são baseadas em entrevistas, jogos, entre outras, que vão tratar sobre o que existe no mercado de trabalho, as rotinas e qual é o cenário das profissões no Brasil. Em seguida, chega-se à síntese das informações e à conclusão.

QUANDO SE DEVE FAZER O ACONSELHAMENTO DE CARREIRA?

Silvio Bock – O ideal é realizar quando o jovem ainda está no ensino médio, a partir dos 16 anos.

Brônia Liebesny – Acredito que não há época certa para essa análise, já que serve para instrumentar o indivíduo a qualquer momento de sua vida. No entanto, por causa da cobrança social, é o jovem do ensino médio que mais procura a orientação profissional.

Sigmar Malvezzi – Aconselho que a orientação deve ser feita a partir dos 16 anos.

Mila Montoura e Fabiana Duarte Takiuti – Trabalho com grupos de dez pessoas, entre 16 e 25anos. Muitos profissionais entre 30 e 35 anos também nos procuram para mudar de carreira.

Maria Elci Spaccaquerche – O melhor momento é no segundo semestre, do segundo ano até o terceiro ano, do ensino médio.

O psicólogo, médico psiquiatra e professor da PUC-SP, Haim Grunspun, discorda em gênero, número e grau quando se fala que o teste vocacional é um técnica ultrapassada. Orientador vocacional há 40 anos, Haim lança mão dessa ferramenta desde sua formação profissional.

“O teste é utilizado no mundo inteiro, principalmente, nos Estados Unidos. No Brasil, a maioria dos profissionais não o adota, mas o aplico há 40 anos, e para os meus clientes a técnica é muito eficaz”, garante o especialista. “Existem alguns testes desatualizados, mas a técnica não é ultrapassada, a essência se conserva e as interpretações são constantemente atualizadas”, completa.

ParaHaim, os testes não são engessados e limitados, pelo fato de mostrar a tendência da pessoa, porque tem um perfil a ser avaliado, que vai revelar se essa pessoa tem habilidade em engenharia ou arquitetura. “Não é um questionário simplesmente, mas um perfil psicológico”, afirma Haim.

Um dos testes preferidos do especialista é o de inteligência global, que avalia as habilidades do ser humano, o nível de percepção, a memória e o raciocínio. Outras opções são os testes de avaliação de estrutura e de dinâmica da personalidade. O de estrutura visa analisar o lado pessoal, equilíbrio e desequilíbrio emocionais, mentais e psiquiátricos. Já o de dinâmica, é um teste temático, que verifica as angústias, rivalidades, conflitos de uma pessoa. “A partir dele, é possível saber, por exemplo, se um jovem está usando drogas”, diz Haim. “Existem vários testes, eu procuro mesclar técnicas de diversos lugares do mundo”, completa.

Depois que os testes são realizados, seguem-se para as entrevistas como jovem e os pais dele. A conversa é baseada no histórico familiar, cultural, situações do cotidiano, relacionamento social, entre outros assuntos. A partir daí é possível chegar ao perfil da personalidade que revela as características, habilidades, dificuldades do indivíduo em questão.

“Faço uma união dos testes, do perfil e da entrevista, traço a personalidade e discutimos se as opções de profissões estão de acordo com o perfil da pessoa”, explica Haim. “Os pais e os jovens, na maioria das vezes, concordam com o resultado da análise”, diz.

Devido ao grande número de resultados positivos obtidos em sua clínica, Haim afirma que os testes não estão ultrapassados. “Hoje não são referência, vejo que muitas pessoas orientam, mas não dão a base, ou seja, os orientadores trabalham com entrevistas baseadas em fundamentos clínicos, mas sem medição factual para avaliar a inteligência e as habilidades do cliente”, finaliza Haim Grunspun, que acaba de lançar o livro Criando filhos vitoriosos: quando e como promover a resiliência, Editora Ateneu.

Autor: Joice Lima, Revista VENCER!

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